Projeto Generosidade

Saindo de Belém rumo à ilha de Marajó, Soure é a terceira parada. Cidade pequena, com 25 mil habitantes, de clima quente e muita chuva, Soure é cercada de fazendas. Foi em uma delas que Zeneida Lima, hoje com 74 anos, começou a pensar em como iria cuidar de crianças sem assistência. A ideia surgiu quando ainda era menina, vendo outras crianças trabalharem na fazenda da família - e, algumas vezes, sendo maltratadas pelo pai. Dessa parte da história até a criação da ONG Caruanas do Marajó, com escola que atende 290 crianças e adolescentes carentes, muito se passou.

Aos 11 anos, Zeneida foi levada pela mãe ao pajé Mestre Mundico para um tratamento. Foi ele quem lhe ensinou os mistérios dos Caruanas, energias naturais que vivem nas águas e que, ao serem convocadas, seriam capazes de tratar as pessoas e a natureza. Depois de um ano de preparação, Zeneida tornou-se pajé cabocla -ela é apontada como a última do Marajó. Mas aos 16 anos, Zeneida se casou, foi morar no Rio, teve quatro filhos biológicos, adotou outros dez e, durante 27 anos, os ensinamentos do Mestre Mundico ficaram esquecidos. Amiga da escritora Rachel de Queiroz (1910-2003), Zeneida dividia com ela o sonho de cuidar de crianças carentes do Marajó. De volta ao Pará quase três décadas depois, Zeneida se surpreendeu ao encontrar a pajelança diferente da que tinha aprendido - a cultura começava a se misturar a outras práticas e crenças. Com medo de a pajelança desaparecer, ela escreveu, em 1993, o livro O mundo místico dos Caruanas da Ilha do Marajó, em que conta o que aprendeu com o Mestre Mundico.

Cinco anos mais tarde, a Escola de Samba Beija-Flor foi a campeã do Carnaval com o samba "O mundo místico dos Caruanas nas águas do Patu Anu", baseado no livro. "O trabalho da mamãe teve grande repercussão", diz a filha Eliana Lima, 53 anos. A partir daí, Zeneida passou a escrever outros livros destinados ao público infanto-juvenil.

Mas Caruanas do Marajó só nasceu em 2003, na casa de Rachel de Queiroz. "Ela estava cansada de ouvir a mamãe ter a ideia de educar crianças e não saber como começar. Um dia, ela falou: 'Já chega. Vamos fazer já essa associação'. E assim foi", diz Eliana. O projeto começou como uma associação que arrecadava e distribuía roupas, alimentos e remédios para comunidades carentes. Mas cresceu, virou uma ONG que mantém a Escola de Ensino Fundamental Caruanas do Marajó, reconhecida pela Unesco. É lá que jovens de 5 a 14 anos aprendem a respeitar a natureza, entre aulas de matemática e português. Por enquanto, o ensino vai até o 4o ano, mas Zeneida planeja, a partir do ano que vem, abrir a grade curricular até o 9o ano. Além da educação formal, as crianças têm aulas de capoeira, produção de cerâmica, bordado e crochê.

Zeneida também virou tema de filme da cineasta Tizuka Yamasaki, que se prepara para lançar ainda este ano Amazônia Caruana, baseado no livro de 1993. Em contato com a pajé, Tizuka ficou sabendo que ela também é compositora. Amiga de Egberto Gismonti, a cineasta tratou de apresentar Zeneida ao músico. Resultado: os dois têm mais de 150 composições em parceria - "Rupiara" é uma delas.

Zeneida não gosta de misturar seu trabalho social com sua missão mística. Para a prática do pajeísmo, às vezes se isola. Mas nem sempre. Ensinar às crianças o uso das ervas medicinais da região para os cuidados com a saúde também é tarefa da pajé. Mas a meninada gosta mesmo quando ela faz os rituais para cuidar da natureza. Nessa hora, usando colares de sementes, ela canta, dança, pede proteção para a mãe-terra. As crianças assistem atentas. Mas Zeneida avisa: "A pajelança não é religião, e eu não sou bruxa".

 

  Esta é uma reportagem do Projeto Generosidade. Todas as revistas e sites da Editora Globo participam desta ação por um mundo melhor. Conheça os detalhes do projeto no site www.projetogenerosidade.com.br